Amor não preenche tudo: por que a carência pode ser falta de mundo e não de afeto.
- Luana Brito
- há 5 dias
- 3 min de leitura
Você gosta do seu parceiro. O relacionamento, no geral, funciona. Ainda assim, algo aperta.
É uma sensação difusa de vazio, tédio ou solidão que vem acompanhada de uma culpa imediata: "estou pedindo demais", "ninguém aguenta tanta necessidade", "ele já faz tudo por mim".
Este texto não é uma aula sobre "ter amigos". É um mergulho na dor de quem sente que exige demais porque, no fundo, está exigindo do lugar errado.

A Matemática da "Vila": O erro de cálculo
Seja no Brasil ou no exterior, caímos frequentemente na armadilha romântica de achar que o parceiro deve ser tudo: nosso melhor amigo, nosso confidente, nosso consultor de carreira e nossa fonte de lazer.
Quando centralizamos todas as necessidades em uma única pessoa, criamos o que a psicologia chama de Indiferenciação do Self.
O problema não é querer proximidade; é transformar o outro na sua única fonte de regulação emocional. Se o seu humor depende exclusivamente da atenção que ele te dá, ou se você se sente "sem chão" quando ele se ausenta, isso não é necessariamente excesso de amor e sim ansiedade de validação.
O impacto no quarto é imediato: o desejo sexual precisa de um intervalo, de um mistério para acontecer. Quando a fusão é total e a segurança é absoluta, o erotismo sufoca. Se o outro já é você, não há quem desejar.
O "Agravante" Migratório: Quando o casal vira "Bunker"

Se essa dinâmica já é desafiadora em situações normais, na vida do imigrante ela se torna crítica.
Ao mudar de país, perdemos nossa infraestrutura de identidade: os amigos de longa data, a família, os códigos culturais implícitos. Diante do Estresse Aculturativo, o casal tende a se fechar em um "bunker emocional".
Aqui, a carência ganha contornos de sobrevivência.
O parceiro se torna a única pátria. É o único que fala sua língua (literal e metaforicamente), o único que valida suas memórias. É uma exaustão física de ter que traduzir a própria alma para o mundo lá fora, fazendo com que o abraço do parceiro seja o único lugar onde seus ombros realmente relaxam.
Mas o custo disso é alto. Transformar o cônjuge em "mundo inteiro" cria um vínculo frágil, onde qualquer desentendimento pequeno é sentido como uma ameaça existencial.
Carência vs. Necessidade
Aqui está o ponto onde a maioria das pessoas se culpa injustamente. Precisamos distinguir duas dinâmicas:
1. Carência Patológica
É uma incapacidade de ficar só e uma busca por validação constante, mesmo quando existem outras opções de suporte disponíveis. Envolve um medo profundo de abandono que não se resolve apenas com a presença do outro.
2. Necessidade Relacional Não Atendida
É a ausência real de vínculos. Se você está isolada seja porque trabalha em home office, mudou de cidade ou imigrou, sua "carência" é um sintoma saudável. Seu corpo está gritando que algo vital está faltando. Tratar essa fome de conexão como "problema psicológico" ou "insegurança" só gera mais culpa.
A Solução: Hipótese do Amortecimento

Relações amorosas não foram projetadas para sustentar uma pessoa inteira. Vilas sustentam pessoas; casais não.
Em psicologia, trabalhamos com a Hipótese do Amortecimento (Buffering Hypothesis): a ideia de que a rede de apoio social atua como um "colchão" contra o estresse. Ter amigos, mentores ou grupos não compete com o seu casamento. Pelo contrário: protege o seu casamento.
Quando você tem um "Terceiro Lugar" (um café, um grupo de corrida, um clube de leitura, um voluntariado), você volta para casa oxigenada. Você traz novidades. Você tira do parceiro o peso de ter que ser o seu "tudo".
Por onde começar
Eu sei que, na vida adulta e na imigração, fazer amigos parece hercúleo. Mas a construção de autonomia exige micro-movimentos, não grandes saltos:
Frequência: Vá ao mesmo lugar (café, parque, aula) repetidamente. A familiaridade gera conexão.
Interesse Comum: Busque grupos baseados em atividades (esporte, livros, cerâmica), onde o foco não é "fazer amigos", mas fazer a atividade. Isso tira a pressão social.
Para imigrantes: Busque espaços onde você não precise "traduzir quem você é" o tempo todo.

Sentir que o parceiro não preenche tudo não significa que o amor acabou. Significa que você é uma pessoa complexa, com necessidades que extrapolam o que um único ser humano pode oferecer.
Investir na sua individualidade e ampliar seu mundo é a forma mais inteligente de cuidar do seu relacionamento. Devolve a leveza, o desejo e a escolha de estar junto.
Agende sua sessão e vamos fortalecer sua identidade para além do casal.




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