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Onde está sua casa hoje? A Construção do Pertencimento Além da Geografia

  • Foto do escritor: Luana Brito
    Luana Brito
  • 17 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

O calendário marca dezembro. Para muitos, é apenas a contagem regressiva para as festas. Para quem vive um processo de imigração, transição de carreira ou mudança drástica de vida, esta data costuma inaugurar uma zona de turbulência silenciosa.

É o momento em que a rotina desacelera e o ruído mental aumenta. A pergunta que paira no ar, muitas vezes não formulada, é: "Onde eu deveria estar agora?"

Se você sente um descompasso entre onde seu corpo está e onde suas memórias dizem que você deveria estar, saiba que isso não é um erro de percurso. É um sintoma de expansão. Vamos conversar sobre como habitar a vida que você escolheu, sem pedir desculpas por ela.


Geografia vs. Psicologia: Por que nos sentimos "fora do lugar"?


Na Psicologia Intercultural, frequentemente discutimos o conceito de Dissonância Geográfica. Ela ocorre quando nossa identidade emocional ainda está ancorada em rituais do passado, enquanto nossa realidade física exige novas adaptações.

Para o dicionário, "casa" é um endereço. Para a psique humana, pertencimento é uma sensação de segurança e previsibilidade.

Quando você muda de país ou de contexto social, você remove as "muletas" externas que diziam quem você era (o almoço de domingo, os amigos de infância, a cultura corporativa anterior). De repente, você é apenas você. E isso pode ser assustador.

A sensação de não pertencer totalmente nem ao "lá" (origem) e nem ao "cá" (destino) é o que chamamos de espaço liminar. A angústia que surge agora, em meados de dezembro, não é sinal de que você errou na escolha. É o sinal de que sua identidade está pedindo para ser atualizada.


A maturidade de criar as próprias tradições


Muitos adultos passam a vida replicando o papel de "filhos" no fim de ano: esperam que alguém crie a magia, faça a comida e dite o ritmo.

A verdadeira autonomia, aquela que buscamos na terapia, reside na passagem do passivo para o ativo. Se o Natal da sua infância não existe mais (seja pela distância física ou pelas mudanças na dinâmica familiar), o que você vai colocar no lugar?

Não se trata de substituir o peru pelo bacalhau ou o sol pela neve. Trata-se de assumir a autoria dos rituais.

  • Quais valores você quer celebrar à sua mesa hoje?

  • A companhia que você tem (mesmo que seja apenas a sua) é validada por você?

Criar novas tradições é um ato de coragem. É dizer para o seu inconsciente: "Esta é minha vida agora, e ela é boa o suficiente para ser celebrada."


Duas fotos lado a lado mostrando uma mulher celebrando novos rituais de inverno: segurando uma lanterna acesa na praia e servindo chocolate quente em um mirante com fogueira, simbolizando autonomia e novas tradições.

Autonomia custa caro, mas paga dividendos


Vamos ser honestos: a liberdade tem um custo emocional, e a moeda de troca muitas vezes é a saudade ou a solidão momentânea.

O imigrante ou o profissional que priorizou a carreira muitas vezes carrega a culpa da ausência. Mas convido você a um questionamento: A sua presença física garantiria a conexão emocional que você idealiza?

Muitas vezes, romantizamos o "estar lá". Esquecemos que a autonomia que conquistamos nos permitiu quebrar ciclos, evoluir financeiramente e expandir nossa visão de mundo.

O desconforto de dezembro é o "imposto" dessa liberdade. Mas os dividendos são a capacidade de se sustentar, de se reinventar e de saber que você não precisa estar no mesmo CEP para amar e ser amado. A distância física não é abandono; é, muitas vezes, a única forma possível de crescimento.


Como desenhar um fim de ano que faça sentido para você


Não entre no piloto automático nos próximos dias. A passividade alimenta a melancolia. Proponho um exercício de intencionalidade:

  1. Valide a Ambivalência: Você pode sentir orgulho de estar em Paris, Nova York ou São Paulo, e ao mesmo tempo sentir falta do café da tarde na casa dos avós. Uma emoção não anula a outra. A psique adulta suporta o "e", não apenas o "ou".

  2. Proteja seu Espaço: Se as videochamadas excessivas geram ansiedade, limite-as. Sua saúde mental é a prioridade.

  3. Ritualize o Presente: Faça algo no dia 24 ou 25 que conecte você com sua essência atual. Um jantar especial, um passeio, um momento de leitura. Marque a data como sua.



Construir um lar dentro de si mesmo é o projeto de uma vida.


Se a sensação de deslocamento ou a culpa estiverem pesadas demais para carregar sozinho neste fim de ano, não espere 2026 para se priorizar. A terapia é o espaço onde transformamos essa solidão em solitude e a angústia em projeto de vida.



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